segunda-feira, março 5

CANÇÃO "DIA DE AVALIAÇÃO (DDA)" É CITADA EM DISSERTAÇÃO ACADÊMICA

É isto mesmo. A canção "Dia de Avaliação", sigla de DDA é citada na dissertação "TEIA DE SIGNIFICADOS DAS PRÁTICAS ESCOLARES:TRANSTORNO DE DÉFICIT DE ATENÇÃO/HIPERATIVIDADE (TDAH) E FORMAÇÃO DE PROFESSORES" da pesquisadora Maria da Graça Faustino Reis, defendida na PUC de Campinas em 2006.

A canção foi apresentada para banca examinadora e é citada como epígrafe do terceiro capítulo, página 57. Na página 156 é transcrita toda a letra, com comentários.

O trabalho pode ser conferido

Vale à pena!

Ouça "Dia de Avaliação (DDA) em
www.tramavirtual.com.br/leandro_maia

sábado, março 3

A palavra de Deus não é Deus
E se a palavra foi Ele mesmo quem escolheu,
A intenção valeu, mas ninguém entendeu nada

Deus escreve certo em linha torta?
Ora, pois que fizesse um desenho.

Pra bom entendedor meio mundo basta,
Para mau entendedor nem um universo inteiro
De que serve um livro debaixo do sovaco
Se não causa o mesmo efeito?

Desde que cheguei, todos me perguntam: como é lá do outro lado? Eu nem sabia a que outro lado eles se referiam. Nem sabia que eu estava em algum lado. “Se você não está conosco está contra nós.” Eu não sabia que estar ali desde sempre, implicava uma tomada de posicionamento. “De que lado você está?” Do lado da verdade, respondi imediatamente. E me safei por pouco. Ali todos conheciam a verdade. Se alguém inadvertidamente perguntasse algo a mais sobre a verdade, estaria se expondo no mínimo ao ridículo e no máximo ás conseqüências. A verdade não deixa dúvidas.
“Como você pode estar calado? Fale sobre o outro lado” – e tive de dizer do que não conhecia. Como eu poderia não ter estado do outro lado se todos estavam convencidos de minha peregrinação? Eu só podia ter estado neste outro lugar. A maioria sempre sabe mais que um só, os outros sempre sabem mais do que eu. É assim desde que nasci. Aliás, foi exatamente a mesma coisa: todos sabiam que eu nasceria antes que eu soubesse que iria nascer. Quando me dei por conta, já estava nascido e sendo alimentado pelos outros, que me diziam o que fazer. Isso faz tempo.
O outro lado é uma escuridão brilhante, uma revelação cega – comecei. O silêncio das expectativas me atordoava e me encantava. Do nada surgiram as palavras que passei a proferir. Todos me ouviam. Todos sabiam do que eu estava falando. Todos conheciam a verdade do outro lado, a vontade superior, a vingança limpa. Disseram que eu era capaz de conhecer, quando, na verdade, somente dava ao público atento uma possibilidade de revelarem a si próprios, de externarem a verdade coletiva que brotava. Nunca precisei saber do outro lado. Ele está entre nós no vácuo dos significados, na ausência do palpável, no caos sábio.
Queriam saber do outro lado e deixavam por instantes de seus afazeres e tarefas. O outro lado surgia quando a massa se juntava e moldava sua história pelo vazio de minhas palavras. E a cada dia estavam mais perto do outro lado. Até que eu não consegui me livrar da terrível tarefa e, pior ainda, não via hora de encontrar a multidão para que ela me ensinasse sobre o outro lado. Comecei a fazer perguntas, sem medir as conseqüências. Todos queriam sinais. Eu precisava dos anseios públicos para fazer verdade minhas palavras, eles queriam a saciedade. Até que um dia gaguejei e todos gaguejaram. Duvidei e duvidaram. Tive de respirar fundo responder o que não sabia. Todos suspiraram aliviados. Éramos um só.