domingo, julho 4

SETE POEMAS DE LAMBUJA

Se eu durmo bem, componho canções. Se tenho insônia, poemas.  Eis o resultado de uma noite em claro, com poemas escritos num bloquinho do Banrisul que ganhei de regalo no "Encontros com o Professor", do Rui Carlos Ostermmann.

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I


A voz avante retumbante surge
e ruge a despalavra larva
seres vivos entre as entranhas estranhas
retorno a ser, dos anjos, matraca


Por mais que soe mofo
de vez e quando a voz vacila
e se, aos poucos, engulo
sílaba por sílaba
cada vez mais aviso:
quem quiser que siga!


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II


Se o poema se põe à mesa
como garfo e farofa
toda mesa farta é prosa
e se a certeza descongela do micro
é porque denovo acredito
que a palavra glacial supera
qualquer temperatura amena


Que o glacê graceje
e o cliché chiclete cacareje


quem depressa perdoa, que ponha os pratos da ceia
quem despreza a cereja, que escolha outra poltrona
já vai começar o programa:
Atire a primeira pessoa


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III


Quem me deu este bloquinho
como se fosse um brinde
que aguente o revide
e ouça um descalabro
toda vez que eu tiro um sarro
é em mim que dói mais


Quem me dera um bloquinho fugaz
pra dispor de algumas ideias,
mesmo feias, mesmo velhas
repetidas senão quando
é nas folhas remando
que eu afogo as mazelas


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IV


a mente faz barulho
quando pensa, à meia noite
a noite quieta ri
da meia-mente que tateia
enquanto o dia clareia
na mais absoluta mesmice
alguém um dia já disse
que a hora se faz a galope
toma um gole - toma um golpe
a vida faz cara feia


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V


eu desfaço tudo o que disse
dando um sorriso depois
e a porrada no vim do vivente
vira massagem no meu próprio ego
é por isso que carrego um engov antes
e um depois
que é para o caso de um dos dois
ter uma constrangite


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VI


Toda felicidade dá de si
que nem alpargata de corda
e se alarga, e se acomoda ao pé mais disforme
há quem diga que a felicidade pisa forte,
mas não deixa rastro que se note.


Quando a felicidade dá o bote,
não há bota que resista
leva tempo, não insista:
a alpargata é que sabe de si.


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VII
pro Gonçalo, que acordou a estas alturas


Quando o piá apita teta quer
esse tarado por mulher
me supera as artimanhas
nunca perde, sempre ganha
a atenção alheia
só não quer mulher feia a apertar-lhe as coxas
de vez em quando meio rochas das mordidas do papai
mas não grita, nem um ai, apenas se vinga na mãe,
dando beiçadas no seio,
que cala consciente