sábado, março 3


Desde que cheguei, todos me perguntam: como é lá do outro lado? Eu nem sabia a que outro lado eles se referiam. Nem sabia que eu estava em algum lado. “Se você não está conosco está contra nós.” Eu não sabia que estar ali desde sempre, implicava uma tomada de posicionamento. “De que lado você está?” Do lado da verdade, respondi imediatamente. E me safei por pouco. Ali todos conheciam a verdade. Se alguém inadvertidamente perguntasse algo a mais sobre a verdade, estaria se expondo no mínimo ao ridículo e no máximo ás conseqüências. A verdade não deixa dúvidas.
“Como você pode estar calado? Fale sobre o outro lado” – e tive de dizer do que não conhecia. Como eu poderia não ter estado do outro lado se todos estavam convencidos de minha peregrinação? Eu só podia ter estado neste outro lugar. A maioria sempre sabe mais que um só, os outros sempre sabem mais do que eu. É assim desde que nasci. Aliás, foi exatamente a mesma coisa: todos sabiam que eu nasceria antes que eu soubesse que iria nascer. Quando me dei por conta, já estava nascido e sendo alimentado pelos outros, que me diziam o que fazer. Isso faz tempo.
O outro lado é uma escuridão brilhante, uma revelação cega – comecei. O silêncio das expectativas me atordoava e me encantava. Do nada surgiram as palavras que passei a proferir. Todos me ouviam. Todos sabiam do que eu estava falando. Todos conheciam a verdade do outro lado, a vontade superior, a vingança limpa. Disseram que eu era capaz de conhecer, quando, na verdade, somente dava ao público atento uma possibilidade de revelarem a si próprios, de externarem a verdade coletiva que brotava. Nunca precisei saber do outro lado. Ele está entre nós no vácuo dos significados, na ausência do palpável, no caos sábio.
Queriam saber do outro lado e deixavam por instantes de seus afazeres e tarefas. O outro lado surgia quando a massa se juntava e moldava sua história pelo vazio de minhas palavras. E a cada dia estavam mais perto do outro lado. Até que eu não consegui me livrar da terrível tarefa e, pior ainda, não via hora de encontrar a multidão para que ela me ensinasse sobre o outro lado. Comecei a fazer perguntas, sem medir as conseqüências. Todos queriam sinais. Eu precisava dos anseios públicos para fazer verdade minhas palavras, eles queriam a saciedade. Até que um dia gaguejei e todos gaguejaram. Duvidei e duvidaram. Tive de respirar fundo responder o que não sabia. Todos suspiraram aliviados. Éramos um só.

3 comentários:

Luiz Augusto disse...

As palavras do Leandro são tão limpas e ricas que a gente fica imaginando a possibilidade de se criar um outro mundo onde nada mais fosse necessário para a comunicação.

Anônimo disse...

Muito bom. Ótimas músicas, trabalho sério e muito elaborado. Parabéns. Estarei com certeza no lançamento do teu CD.

Papo Sonoro disse...

Simplesmente espetacular Leandro. És como as flores que, por só só são presentes de Deus doados aos homens de bem ( e de mau) desta imensa aldeia chamada TERRA. Tuas palavras soam como remédios à minh'alma. Gracias hermano e saludos da Fronteira (Livramento e Rivera)