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sexta-feira, setembro 29

E se eu estiver errado?

E se eu estiver errado?

Faz tempo que não ando muito por aqui nas redes sociais. Me deu vontade de escrever algo que venho ruminando há algum tempo. Trata-se de um arquivo pessoal, pensando em voz alta sem nenhum objetivo maior do que não me sentir sozinho num país estrangeiro numa sexta à noite :) Ainda que com muito trabalho a fazer e muito amor em todo o canto.

Quando eu era adolescente e tomei o meu primeiro grande porre, ocorreu algo. Hoje considero absolutamente cedo e não gostaria que meu filho enchesse a cara na idade em que enchi, mas tive a sorte de estar num ambiente seguro, amparado por verdadeiros amigos. E o porre acabou surtindo uma espécie de efeito de 'batismo' - um outro Leandro público surgiu ali, que dava vasão à sua revolta revolucionária e citava em tom de discurso os trechos de suas leituras da época, em livros comprados no sebo da Martins Livreiro.

Eis que a frase desta bebedeira ecoa até hoje quando encontro os amigos daquela época: 'Porcos imperialistas!'. Olham pra mim e riem. Esse era o meu brado contra a invasão norte-americana no Brasil, o patrocínio à ditadura, a invasão cultural. Naquela época, por exemplo, eu não ouvia música em inglês. Antes disso já havia absorvido muito de Beatles, Led Zeppelin e Pink Floyd e seguia absorvendo, mas não queria saber da música das rádios da época, não gostava sequer de música pop em português, por exemplo. Fui um adolescente bastante ranzinza, pra dizer a verdade. Saldei este débito afetivo homenageando o Nirvana em meu primeiro disco (DDA).

Naquele período - aliás bastante anterior à minha maioridade - eu me definia claramente como um revolucionário no sentido estrito do termo: existe uma injustiça e precisamos combate-la com todos os meios. Eu havia lido sobre guerrilhas, captação de recursos através da expropriação (assaltos a banco), sequestro de embaixadores em troca de presos políticos e tudo mais. Todos os meios eram válidos para acabar com a opressao e a existência de exploradores e explorados. Eu costumava dizer que morreria com '50 anos, com um tiro nas costas, numa revolução'. O diário de Che na Bolívia era um livro importante pra mim. Com 12 anos havia lido Guerra de Guerrilhas e seu apêndice 'Reflexões sobre o sistema educacional cubano'. Na infância, lá pelos 9, descobri que a figura que eu via na bandeira de uma torcida organizada no estádio beira-Rio - a Juventude Internacionalista - era um grande Che Guevara, que identifiquei num livro de História, ou no Almanaque Abril, não sei. Fiquei doido com a história da revolução cubana. Eis que a partir dali tratava-se de, basicamente, definir meu perfil revolucionário: comunista, anarquista, leninista, trotskista, malatestiano, etc. Na verdade uma engronha danada.

Mas eis, que em algum momento, já um pouco mais velho, depois de mandar brasa nas passeadas, assembléias, plenárias, comícios, protestos, surge uma pergunta na minha cabeca: 'e se eu estiver errado?' E se eu estivesse errado?

Não se tratava de negar a injustiça, a exploração, a pobreza, a dominação, o imperialismo. Não se tratava de negar as suas causas e as evidências. A minha pergunta - e se eu estiver errado? - se tratava, basicamente, de uma referência ao método revolucionário, digamos.

Aqui a história se impõe: revoluções, via de regra, são capitaneadas por vanguardas. Mesmo que executadas pelas massas. É intrínseco ao ser vanguarda achar-se detentor de uma verdade e um saber que não é compartilhado pela massa, pela população, pelo povo, pelas pessoas, pelos outros, enfim. Existe aparentemente algo messiânico no 'ser revolucionário'. Eu vos darei a verdade e a vida. E uma arrogância tremenda. Um sentimento inexorável de superioridade. Naquela época, embora jovenzito, talvez sequer tivesse a autoconfiança e autoestima suficiente para ter alguma revelação que os outros não tivessem (dei-me conta depois, obviamente). Aliás, boa parte do espanhol que sei foi aprendido de forma autodidata, lendo textos, ouvindo canções e improvisando discursos em minha cabeça de exército de um homem só. E o triunfo, o heroismo, o pulsar da vida se materializavam nas minhas mãos que falavam sozinhas no meio da rua em meio ao mundo paralelo em que me encontrava. Aquilo me nutria para seguir, para ler, para estudar meu violão por horas seguidas.

Num primeio momento, a 'descoberta da verdade' é absolutamente reconfortante. Existe um caminho, temos um plano, vamos executá-lo. Sabemos da dureza da tarefa, vamos convencer as pessoas e mudar o mundo. Acho que a sensação de um convertido à uma igreja pentecostal no Brasil deve ser muito parecida. Por isso, não os condeno, os compreendo e gostaria de tocar nesta energia tão poderosa que nos faz levantar nas manhãs frias e descalças, que nos faz levantar a cabeça em direção ao futuro. Será que conseguiríamos manter esta energia sem ter a necessidade de uma única certeza?

E se eu estiver errado? Posso eu saber dos outros mais do que os outros sabem de si mesmos?

Aviso:
'Nem toda revolução política é uma revolução cultural, mas toda revoluçao cultural é uma revolução política.'
Uma das primeiras fichas que me caiu. Está lá no Palavreio. Ali percebi um caminho. E descobri que fazer música é, mais do que tocar, ser tocado.

E se eu estiver errado? Esta pergunta, confesso, segue me norteando/desnorteando. Ela não me induz nem me obriga a mudar de pensamento. Mas necessariamente me obriga a considerar o outro. O outro real, que não é aquele que habita nossas neuroses, paranóias, traumas, preconceitos. 'Se eu estiver errado?' em sua natureza de pergunta conduz ao diálogo.

E aí, talvez venha a máxima de que várias cabeças pensam melhor do que uma. E não é porque a solução venha a ser a 'mais correta', ou porque alguma estatística garante a melhor probabilidade. Mas é porque é a melhor solução é a mais 'engajada', a mais comprometida, aquela pactuada. Sim. Todos nós já vivemos momentos epifânicos de criação coletiva onde a alegria da solução coletiva se sobrepõe à racionalidade da solução dita 'correta'. É esse coletivo maior que precisamos levar em conta.

E se eu estiver errado?

Desde então, não deixo de dizer nada. Nunca deixei de discordar, de combater, de enfrentar. Sou um baita teimoso. Mas nunca vou deixar de me perguntar: e se eu estiver errado? O problema é que, muitas vezes, a pergunta se dá atrasada. Deveria ter sido feita antes. Errei no tempo, ouvi pouco, ou não fiz minha pergunta ser ouvida pelos outros.

E se nós estivermos errados? Aqui é diferente. Se o 'nós estivermos errados?' vier depois de 'e se eu estiver errado?' já não importa. Se o nosso erro é coletivo, é consensual, o importante é estarmos em paz. A melhor solução não é a solução 'correta' imposta, mas a solução pactuada por todos livremente. O desafio, na verdade, é chegar aí.





terça-feira, julho 4

TVE E FM CULTURA

Quatro da manhã na Inglaterra. Não consigo dormir.

Mas que tenhamos claro, meus amigos. Eles perderam. Eles não conseguiram e não vão conseguir acabar com a TVE e a FM Cultura. Juridicamente não será possível, politicamente não será possível porque tem uma comunidade fiel, combativa e plural de ouvintes e parceiros que não vai deixar assim. Não vão conseguir porque os funcionários estão mobilizados, bem organizados e o público está engajado para além de qualquer bandeira partidária.

O que resta ao governo? A mesquinhez de atingir o nosso afeto de público aguerrido. Como? Trocando os apresentadores que representam a alma de programas locais, que simbolizam a voz da cidadania gaúcha por seu próprio mérito e resistência. Neste sentido, uma ação e dois efeitos: tentar baixar a moral da tropa e fazer-nos sentir poucos e pequenos.

Será que eles acham que, num passe de mágica, novos ouvintes/telespectodores surgirão na mesma medida em que desacatam um público fiel e comprometido com a emissora? Óbvio que não. O recado é pra mim, pra você. Eles querem nos fazer sentir que somos minoria.

Não somos minoria. E a resposta virá nas urnas.

O meu abraço e solidariedade aos admiráveis Newton Silva, Luiz Henrique Fontoura, Marta Schmitt (que me saltam à memória, comprometida pela minha ausência do BR e pelo natural bloqueio em se falar de algo tão dolorido).

Aos novos dirigentes:

* Que eles tenham a missão de afastar o fantasma da extinção das emissoras públicas, preservando seu caráter educativo.

* Que valorizem o diálogo com a equipe de concursados efetivos da rádio, assim como o público que já existe. Perder o público que existe é um grande erro estratégico.

* Que eles saibam que são passageiros e que os olhos e ouvidos estão acompanhando seu trabalho.

* Que compreendam a nossa desconfiança de descrédito. Embora saibamos que existem dirigentes que seriam bons em qualquer governo, eles assumiram as emissoras num momento extremamente delicado, provocado pela terrível gestão imediatamente anterior.

* Que o erros do início da gestão, que ultrapassaram limites da decência e da humanidade (uso da força policial, tentativa de intimidação, perseguição, demissões ilegais) tenham servido de lição para que a troca de gestão na Fundação e nas Emissoras simbolize um verdadeiro e sincero remanejo da política de cultura e comunicação.

quinta-feira, dezembro 22

Viva a TVE e a FM Cultura

AGRADECIMENTO AOS AMIGOS DA TVE E FM CULTURA
A minha relação com as equipes de concursados da TVE e FM Cultura iniciou-se de forma protocolar. Um artista que visita as emissoras para falar do seu trabalho. Quero dizer que ao longo dos anos, este relacionamento se transformou em amizade, de minha parte movida pela profunda admiração. Amizade, admiração e amor.
A admiração e o orgulho que eu sempre tive desses funcionários estáveis, incorruptíveis, de extrema delicadeza, bom gosto e sabedores de enorme importância do seu papel.
E, se não bastasse competência e ética estarem de mãos dadas, o amor que esses meus amigos nutriram pela TVE e FM Cultura sempre foi contagiante. Amor pela comunicação, pelo jornalismo cultural. Amor pela música e pelas artes.
Esse amor é o que vocês deixam, meus amigos. O zelo e o carinho por algo muito maior do que nós. Nossas heranças, nosso capital simbólico, nosso compromisso.
A lágrima agora tem gosto de sal, mas o abraço tem a força do mar.
Amo muito vocês. Obrigado pelo que fizeram e pelo que vocês seguirão fazendo. Esse amor seguirá transformado e transformando. Eu sinto esse amor de vocês pelo trabalho. E é esse amor que é o perigo. É esse prazer pelo trabalho que querem acabar.
Seguiremos com indignação e luta. Mas o amor, o prazer e a delicadeza, ah, esses seguirão em nossa teimosia.
Muita força. Muito obrigado. Estamos juntos e a contribuição de vocês é inesgotável.
Aos mais próximos Luiz Henrique FontouraMarta SchmittNewton SilvaClarisse DiefenthälerPaulo MoreiraDemétrio De Freitas XavierRodrigo DMartMárcio GobattoLuiz Lau, Vera Vergo, assim como aos demais amigos da Fundação Piratini. O meu imenso agradecimento. Vocês dignificam o por do sol visto do Morro Santa Teresa.

sábado, outubro 11

FEIURA, PREGUIÇA, INOCÊNCIA E ÓDIO

FEIURA, PREGUIÇA, INOCÊNCIA E ÓDIO (O BLOGGER NÃO ESTAVA DEIXANDO EU POSTAR NOVO TEXTO, ENTÃO APROVEITEI UM POST ANTIGO. A DATA É DE 16/03/2015 Acordei agora. Quase quatro da manhã e devo demorar para conseguir dormir. Algumas sensações estranhas. Ontem foi 15/03, dia da passeata em todo o país. Permaneci no Laranjal, praia de água doce que tem sido um misto de morada e refúgio. Acompanhei alguma coisa pela internet, redes sociais. Este movimento tem muitas leituras e eu não gostaria de restringir apenas à minha impressão inicial, que toma as movimentações como manobra de desestabilização do governo, terceiro turno, revival da marcha de 64 ou mimimiday. Acho que temos algo muito maior em curso e sobretudo algumas revelações sobre quem somos. Embora não possamos considerar as manifestações como espontâneas, haja visto a grande antecedência e campanha realizada por meio de comunicação de massa. Mas a participação de pessoas que considero queridas, tais como mães e pais de amigos me revelou – através da afetividade – algo que não havia notado até então. Uma das pessoas queridas postou fotos com a legenda: “Eu fui. Por insatisfação com a impunidade e com o desrespeito das lideranças (3 poderes) para com a população”. E a primeira foto mostra o cartaz “Dilma: não é 3º turno nem golpe. É indignação. Saco cheio. Ou muda ou cai fora”. A legenda e a foto pareceram pra mim uma grande contradição. Primeiro porque demonstram a insatisfação com a impunidade (três poderes) enquanto o cartaz atribui toda a responsabilidade à presidente Dilma. Ou “muda ou cai fora”. Acho que isso revela muitas coisas sobre nós brasileiros. Talvez do ser humano em si. Somos feios. Acho que somos também preguiçosos. Descobrimos como somos feios e não gostamos nem um pouco. Descobrimos a corrupção encralacada nos três poderes. Descobrimos a corrupção capilarizada na iniciativa privada. Descobrimos a corrupção em nossas relações pessoais. O que antes era escondido, agora tornou-se insuportável. Somos feios, preguiçosos e inocentes também. Inocentes porque talvez não soubéssemos de toda a roubalheira. Talvez hipócritas. Preguiçosos porque restringimos nossa participação política apenas às eleições, lemos apenas o que nos cai nas mãos e em letras garrafais, não nos informamos direito e sequer conseguimos unificar nossos anseios em uma bandeira única, como a reforma política, por exemplo. Neste sentido, é necessário que a imprensa estimule nossa raiva, que seja realizada uma grande greve de caminhoneiros estimulados pelos empresários, que alimentos estraguem nos estoques e fiquemos sem gasolina por um ou dois dias. Soma-se ao fato do dólar subir um pouco e a meta de inflação tenha de ser flexibilizada. Isto depois de ficar sem água em regiões onde isso era inimaginável. A raiva e o ódio surgem naturalmente e é fácil disfarça-los em indignação. Digredindo mais um pouco. Eis que a Presidência da República não tem mais apenas uma função de governança de estado. Ela contém em si uma carga simbólica muito grande. Talvez aquela saudade da monarquia que todos inconscientemente temos em nossas fantasias infantis. Há poucos dias ouvi uma entrevista do prefeito Fernando Haddad, de São Paulo, avaliando os índices de popularidade de sua gestão. Não moro em São Paulo, mas muitos amigos o consideram o melhor prefeito de todos os tempos. Ouvindo sua entrevista e, apesar da tentativa gritante dos entrevistadores em desqualifica-lo, fiquei muito surpreso com sua postura e acredito que realmente seja uma grande figura. Invejo a cidade de São Paulo por ter um prefeito como ele, ao mesmo tempo em que lamento sua saída do Ministério da Educação. Haddad, naquela ocasião, demonstrou muita tranquilidade ao falar sobre o papel simbólico em ser prefeito de uma cidade como São Paulo, dizendo que o prefeito concentra demandas que muitas vezes extrapolam sua real responsabilidade. “A crise da água, por exemplo – disse ele – também entra na conta do prefeito.” O curioso é que Haddad, ao invés de transferir a responsabilidade, entendeu que a população não está propensa a fazer esta avaliação e que o prefeito deve saber que faz parte de “ser prefeito” lidar com estas reações. Escrevo este breve relato para que possamos pensar sobre o que se espera, no senso comum, de um presidente. Neste sentido, ainda acho que somos preguiçosos e inocentes: queremos pessoas mágicas que resolvam os nossos problemas e não nos deem muito trabalho. O Partido dos Trabalhadores possui também uma grande importância simbólica. Amigos que participaram da fundação do PT são, hoje, talvez os maiores anti-petistas que eu conheço. Algo como “o PT não podia ter feito o que fez”. E está correto. Ao mesmo tempo, tenho a impressão de que funcionam como ex-fumantes que condenam o vício. É uma grande frustração e demonstra mais uma vez nossa feiura. Chamo a atenção, apenas, para o fato de que a mesma expectativa que existe sobre um prefeito ou uma presidente, também é atribuída a um partido. E Aqui talvez resida a novidade. O caso PT é emblemático justamente por ser um partido originalmente constituído de pessoas reais que nunca haviam acendido à condição de gestores públicos. Um bancário que se tornou prefeito de Porto Alegre. Um metalúrgico que se tornou presidente. Neste sentido, nossa inocência em acreditar que se pode chegar ao poder sem entrar no sistema e resolver o Brasil sozinho, nosso ódio ao descobrir nossa própria feiura refletida em alto escalão e nossa preguiça cúmplice, que nos faz entender que simplesmente tirando o mandatário, ou um partido, resolve-se a questão. Outros partidos possuem/possuíram funções simbólicas tão importantes quanto o PT. O PMDB da redemocratização, o PTB/PDT do trabalhismo, para ficar nos partidos de massa que, pelo menos desde os anos 50, alternaram representações diversas do segmento de trabalhadores e movimento sindical. O termo feiura que venho utilizando, vale ressaltar, que nada tem a ver com aspecto físico. Estamos falando de nossa feiura moral, a descoberta que podemos tomar sete gols em casa, a descoberta de que não somos mais tão bons assim, e de que realmente queremos levar vantagem e passar a perna. A feiura do célebre diretor da empreiteira que todos fomos educados a admirar e querer ser. A preguiça mora na feiura. E não é preguiça física. É intelectual. Nossa crise é uma crise de classe média. É crise da opinião pública. É, sobretudo, uma ansiedade generalizada em tentar resolver as coisas do dia para a noite. Mais do que indignação, me parece que estamos num processo de negação. O feio é o Outro. As ruas pálidas retocadas de verde e amarelo CBF parecem querer expurgar com ódio a própria feiura, preguiça e inocência. Somos assim. Precisamos de um ícone para representar os males que estão contidos em nossa própria brasilidade. Precisamos de alguém para sacrificar, já que está chegando a páscoa, mesmo. Que possamos renascer menos feios após a páscoa e que ninguém precise morrer na cruz para purgar os nossos próprios pecados.

sábado, janeiro 11

Shalom Sharom, Salam Saddam

No verão de 2003, ainda sobre o som televisivo dos bombardeios de Bush compus esta canção.

Resta um arquivo velho, de ensaio em estúdio gravado em take único com overdub de vozes. Um registro cru para uma guerra sangrenta que apresenta sequelas até hoje.

Ariel Sharon está morto. Assim como Saddam Roussein, Yasser Arafat e outros personagens que estão mortos ou no fim de carreira. Que tenhamos dias melhores.

Fica aqui o registro.



Visão do Conflito
(Leandro Maia)
Donos da verdade se aproveitam dos fanáticos
Tomando territórios palestinos desarmados
Irônicos desdenham dos acordos e tratados
Tiram vantagem do sofrimento dos seus antepassados
Árabes cometem atentados eficazes
Assassinam a si mesmos por rancores milenares
Homens-bomba, grupos paramilitares
Organizam lutadores, terroristas, kamikases
O xerife texano envia tropas de milícia
Jovens pobres vão à guerra pela máfia armamentista
Salve, salve, chefe ianque da ganância petrolífera
Colin Powell, Tony Blair e os comandados da rainha
O império se expande sobre os povos catatônicos
Com um súdito ministro, Nero Anglo-saxônico
Onde os proto-neo-nazi-fasci-norte-americanos
E a direita israelense executam novos planos
Shalom Sharon Sharon Shalom
Shalom Sharon Sharon Shalom
Shalom Sharon Sharon Shalom
Shalom Sharon Sharon Shalom
Salam Saddam Saddam Salam
Salam Saddam Saddam Salam
Salam Saddam Saddam Salam
Salam Saddam Saddam Salam
Javé, Jeovah, Jesus, Alah
Oh Bless My Lord Tupinambá
Washington, Cabul, Jerusalém, Bagdá
Saddam Russein, Tony Blair, Yasser Arafat
Mr. Bush, shut up, o jogo não acabou
Salam Sadam, Shalom Sharom

sábado, dezembro 14

Breve Reflexão Sem Comentários



Breve Reflexão Sem Comentários.





Em arte, forma é conteúdo.
Em política, método é mérito.
Se em arte, conteúdo sem forma, é inocência estética
Em política, mérito sem método é inocência ética

Se a forma contamina o conteúdo - e se for realmente possível separar um do outro - 
O método contamina o mérito.

Ou seja:
Política é a arte de conciliar mérito e método.
Um erro de método é um erro político.
Mesmo que o mérito esteja correto.
Mas um acerto de mérito não implica necessariamente um acerto político, eis um problema ético.
É preciso que sejamos éticos
É preciso tenhamos métodos
Para fazer política
É preciso que tenhamos fígado.
É preciso que tenhamos méritos.
É preciso que sejamos dignos .
É preciso que tenhamos cérebro.



Leandro Maia
Dezembro de 2013

sexta-feira, julho 20

PLANO ESTADUAL DE CULTURA DO RS - APONTAMENTOS




APONTAMENTOS SOBRE O PLANO ESTADUAL DE CULTURA (PEC)

Leandro Ernesto Maia
Músico



I
Ainda neste ano de 2012 deve ser enviado para a Assembléia Legislativa o projeto do Plano Estadual de Cultura, que visa apontar diretrizes e ações na área para os próximos dez anos. O projeto encontra-se em fase de elaboração, revisão e sistematização pela Secretaria Estadual de Cultura (SEDAC).

II
O projeto vem na esteira de todo o movimento constituído entre Ministério da Cultura e sociedade civil durante os oito anos de governo Lula, que instituiu o Conselho Nacional de Políticas Culturais (CNPC), Câmaras Setoriais e Colegiados Setoriais e outras instâncias de deliberação.

III
Tornar a Cultura política de Estado talvez seja o grande avanço para a área nos últimos anos. Cultura como política de Estado, além de reconhecê-la como direito fundamental a todos os cidadãos, também a estabelece como área estratégica em termos educacionais e econômicos. É cada vez mais crescente a concepção de Economia da Cultura, associada ao conceito de Economia Criativa. Hoje, falar em Cultura, não deveria mais soar como extravagância ou algo supérfluo, e sim como área estratégica ao desenvolvimento nacional e regional, possibilitando a criação de emprego e geração de renda através de ações renováveis e sustentáveis, ou seja, nosso capital simbólico e criativo. Assim como se estimula a economia através do consumo de automóveis e eletrodomésticos, pode-se estimular a própria economia através do consumo de bens culturais, digamos.


IV
O assunto, portanto, é da maior relevância. Relevância humana e econômica. E tem sido tratado assim através da elaboração do Plano Estadual de Cultura, da criação da Secretaria de Economia Criativa na SEDAC, da regulamentação e implementação efetiva do Fundo de Apoio a Cultura (FAC), além da antiga LIC, ligados ao PROCULTURA estadual, dentre outras diversas ações. Neste sentido, em termos regionais avançamos sem dúvida.

Vale ressaltar, já de início, alguns grandes acertos da SEDAC/RS na condução da política estadual ligada à cultura. Estes acertos referem-se às bases conceituais: identificação e fomento das cadeias produtivas, bem como o estabelecimento das três dimensões da cultura: a estética, a cidadã e a econômica. Desde o ano passado, o Governo do Estado realizou seminários e conferências em todo o estado constituindo, a partir das discussões, os Colegiados Setoriais, ou seja, grupos de trabalho compostos por governo, instituições e sociedade civil divididos por áreas como Música, Dança, Teatro, Culturas Populares, Audiovisual, entre outros, com o objetivo de estabelecer as bases do Plano Estadual de Cultura e linhas de ação.

VI
O Plano Estadual de Cultura, como está consolidado até o momento em seu texto base, apresenta cerca de 40 páginas com mais de 250 ações divididas em tópicos como Estado, Diversidade, Acesso, Desenvolvimento Sustentável, Participação Social e Territorialidade. A estrutura do documento é coerente com o processo e discussões realizadas até o presente momento: bastante trânsito entre diversas localidades, realização de palestras e seminários, e menor audiência efetiva às demandas da sociedade civil ligada à área da cultura, além de pouquíssimas reuniões efetivas dos Colegiados Setoriais – criados pela SEDAC em novembro de 2011, justamente para aprofundar as discussões e encaminhar o Plano. Se os Colegiados visam objetivar e sistematizar o diálogo entre Governo e Sociedade Civil, com ênfase no Plano Estadual de Cultura, o diálogo ainda não está ocorrendo a contento.


VII 
O Colegiado Setorial de Música, por exemplo, teve apenas uma reunião, no dia 28 de maio de 2012, convocada no dia 14 do mesmo mês, para analisar as mesmas 40 páginas. Assim como outros Colegiados, os representantes vivem em diversas localidades do interior, não recebem nenhuma ajuda de custo, e precisam planejar suas saídas e agendas. Neste sentido, as representações seriam mais efetivas se houvesse planejamento antecipado de reuniões e boa vontade dos representantes do governo em viabilizar a vinda de representantes à capital: até março, por exemplo, divulgar-se-ia o calendário de reuniões previstas no semestre, entre outras ações. Os encontros “Diálogos Culturais” realizados em diversas cidades do interior não se constituíram como encontros dos Colegiados, pois se caracterizaram como momento informativo aberto ao público, priorizando o formato seminário, mesa redonda, conferência ou palestra de representantes do governo ou convidados. Vale salientar a manifestações de diversos representantes culturais durante a Conferência Estadual de Cultura no sentido de chamar a atenção para o pouco “diálogo” afetivo, onde a programação privilegiava as falas do governo e convidados, havendo pouco tempo efetivo para a apresentação de demandas e propostas da sociedade civil.

VIII
Vale salientar que as entidades, representantes e participantes independentes da sociedade civil ligados à área da cultura já tem uma série de discussões acumuladas, vivências e experiências a serem compartilhadas. Vêm trabalhando, debatendo e articulando políticas culturais há bastante tempo, pelo menos, desde as Conferências Nacionais de Cultura, a Constituição dos Colegiados e Câmaras Setoriais e a redação do próprio Plano Nacional de Cultura. Ouvir as entidades, ativistas culturais e artistas é útil para o próprio governo, que pode focar sua atuação como articulador e pactuador, promovendo e intensificando a construção de políticas públicas conectadas com a realidade. Aliás, este é um dos preceitos da cultura contemporânea: o da inteligência coletiva.

IX

Vale salientar que o pouco diálogo aprofundado se reflete diretamente no Texto-Base do Plano Estadual de Cultura até aqui: ênfase conceitual e poucas diretrizes e linhas de ação concretas. Comparando-se ao Plano Nacional de Cultura, há pouca variação e nenhuma especificidade em um conjunto de 250 ações genéricas, que não se constituem como metas claras e objetivas, ou seja, não se apresentam como indicativos norteadores de políticas públicas. Temos um Plano Estadual de Cultura até aqui se constituindo como um belo manifesto, apenas. Para se ter uma ideia, nenhuma instituição governamental ligada à cultura sequer é citada. Segundo o texto-base, não existe Fundação Cultural Piratini, nem TVE, nem OSPA, nem Discotheca Pública Natho Henn, nem Biblioteca Pública do Estado, nem sistema de Museus, nem Casa de Cultura Mário Quintana, dentre tantos outros equipamentos culturais do próprio governo. Em governos recentes, tanto a OSPA como a TVE quase foram desativadas, sendo primordial à sociedade zelar pela permanência e qualificação destas instituições. O texto-base cita, por cinco vezes, os Colegiados Setoriais, mas não regulamenta ou estabelece nenhuma atribuição. Cita a implementação de um Sistema Estadual de Cultura, sendo que o Plano poderia, inclusive, avançar e instituir o próprio Sistema Estadual de Cultura.

X
A pouca objetividade e funcionalidade não é um privilégio do Plano Estadual de Cultura. O Plano Nacional de Cultura, instituído pela LEI Nº 12.343, DE 2 DE DEZEMBRO DE 2010 apresenta os mesmos problemas de generalidade e pouca objetividade, e não foi por falta de debate, já que durante os anos de 2005 e 2006 representantes da sociedade civil e Governo Federal identificaram desafios, apontaram diretrizes e pactuaram diversas linhas de ação a serem incorporadas ao Plano Nacional de Cultura. A redação final do PNC, infelizmente, optou por eliminar toda a objetividade possível apresentada pela sociedade civil, trazendo um texto genérico. Ao que tudo indica, o Plano Estadual de Cultura segue pelo mesmo caminho, com a diferença de que pula uma etapa – a discussão com a sociedade civil através dos Colegiados Setoriais. Eis uma prática bastante curiosa e sintomática: o próprio governo toma a iniciativa de estabelecer canais de discussão direta e permanente com a sociedade civil, através de diversos mecanismos, mas na hora do “vamos ver” o próprio governo se esquece dos mecanismos criados e toca os projetos à sua maneira. A quem interessa um Plano Nacional/Estadual de Cultura excessivamente genérico com poucas diretrizes? Certamente não interessa à sociedade civil.

XI
Ainda no âmbito do Plano Nacional de Cultura, uma simples comparação entre os relatórios das Câmaras Setoriais e o texto final da lei comprova o que estamos apontando, quase em tom de denúncia: os planos setoriais se estruturaram através de Desafios, Diretrizes e Linhas de Ação, partindo do Geral para o particular, onde é possível perceber, nas linhas de ação, propostas concretas e objetivas que foram amplamente discutidas e pactuadas, ou seja, acordadas entre Governo, Entidades e Sociedade Civil. Na área da música, por exemplo, foi possível unir, quem diria, OMB, ECAD, FUNARTE, ABEM em prol da diretriz “8) Garantir o cumprimento da obrigatoriedade do ensino da música em  toda a escola brasileira priorizando os profissionais da área de música”. Como fruto desta e de outras mobilizações da sociedade civil, foi aprovada a Lei 11.769/08 que estabelece a música como componente curricular obrigatório na educação básica. O que parecia impossível, se tornou realidade – pelo menos em termos legais – em menos de três anos. Aliás, antes mesmo da aprovação do Plano Nacional de Cultura, genérico e pouco objetivo.


XII
Mas o Plano Nacional de Cultura não representou um avanço? De fato. Um avanço e uma conquista histórica. Para quem acompanhou de perto toda a mobilização e sensibilização da classe artístico-cultural, foi possível perceber um sentimento de “verdadeira constituinte da cultura”. O plano, ao final das contas, dissipou as maiores aspirações dos ativistas da cultura. O maior pecado de todo este processo desencadeado entre 2004 até os dias atuais talvez tenha sido a própria desmobilização das entidades e ativistas culturais, organizados através do CNPC – Conselho Nacional de Políticas Culturais. Coube ao CNPC lembrar sempre ao governo os documentos a ações pactuadas, promover moções, destaques e indicar orientações de realização de políticas públicas. O que ocorreu? O CNPC foi esvaziado pelo próprio Governo Federal, que tenta agora renová-lo e encontra – vejam só – grande dificuldade em cadastrar novos candidatos aos Colegiados e Conselho. No âmbito do RS, na primeira chamada de inscrições para representantes ao Conselho Nacional, não atingimos o quórum mínimo na área da música para termos representantes. Será que isto se deve somente à falta de consciência e preparo da comunidade cultural gaúcha? Ou se deve à falta de compromisso dos governos em honrar Colegiados, Conselhos e pactuações estabelecidas com a sociedade civil?

XIII
Voltemos ao nosso Texto-Base do Plano Estadual de Cultura do RS. De maneira geral, chamamos a atenção para os 250 desafios apontados, mas poucas diretrizes e nenhuma linha de ação concreta, conforme ilustramos na comparação entre o Plano Setorial de Música (Nacional) e o Plano Nacional de Cultura. Houve, no início do processo Federal um acerto incrível: os Planos Setoriais (com suas diretrizes, desafios e linhas de ação concretas) encontravam-se prontos e pactuados antes mesmo do Plano Nacional de Cultura. Erro grave: não há uma menção sequer aos Planos Setoriais no Plano Nacional de Cultura, que optou pela generalidade infértil. É como se todas as discussões, pactuações e anos de trabalho e investimento do próprio governo não tivessem existido. Os Planos Setoriais não são lei. A lei é genérica. Para que(m) serve uma lei genérica? Se o Plano Estadual é apenas uma adaptação do Plano Nacional, qual o sentido de fomentar quase dois anos de diálogos com o setor em diversos municípios e estabelecer Colegiados Setoriais no Estado? Faltou criatividade aos gaúchos para superarem o Plano Nacional de Cultura?

XIV
Passemos, então, a alguns apontamentos e sugestões a título de ilustração. No atual Texto-Base do Plano Estadual de Cultura consta, ao meu ver uma Diretriz: “1.30 – atuar em conjunto com os órgãos de educação no desenvolvimento de atividades que insiram as artes no ensino regular como instrumento e tema de aprendizado, com a finalidade de estimular o olhar crítico e a expressão artístico-cultural do estudante.” Esta diretriz integra um Desafio/Objetivo “VII – Estimular a presença da arte e da cultura no ambiente educacional”. Se seguíssemos uma metodologia semelhante aos Planos Setoriais ignorados posteriormente pelo Governo Federal/MinC, poderíamos pensar nos seguintes exemplos de Linha de Ação: a) Criar editais de aquisição de obras artísticas, livros, CDs, DVDs, catálogos, entre outros, para bibliotecas e espaços culturais de escolas públicas. b) Fortalecer e expandir programas como “Autor Presente” e “Adote um Escritor” ampliando-os para outras áreas artísticas; c) Criar selos indicativos, premiações e catálogos de obras audiovisuais e sites recomendadas para escolas; d) Desenvolver e apoiar portais interativos na internet com conteúdo cultural rio-grandense em suas diversas expressões, etc.
Outra necessidade é estabelecermos diretrizes culturais para os equipamentos do Estado, bem como instituições como: Desafio/Objetivo, conforme o Plano atual: XIII – Descentralizar a implementação de políticas públicas de cultura; Diretriz, conforme o Plano atual: 1.11 – Promover uma maior articulação das políticas públicas de cultura com as de outras áreas da administração pública, compreendendo o papel integrador e transformador da arte e da cultura na sociedade. O Plano Estadual de Cultura pára por aqui. Propomos avançar através da inclusão de um “Caderno de Ações”, Linha de Ação: a) Descentralizar e interiorizar os equipamentos culturais no estado através da criação do Instituto Banrisul Cultural e da construção de Centros Culturais com programação contínua e articulada em diversas localidades do RS;
Outros exemplos, Desafio/Objetivo, do Plano Atual: IV – Valorizar e difundir as criações artísticas e os bens culturais; XII – Profissionalizar e especializar os agentes e gestores culturais; Diretriz, no Plano atual: 4.65 – Avançar na qualificação do trabalhador da cultura, assegurando condições de trabalho, emprego descente e renda, promovendo a profissionalização do setor, dando atenção às áreas de vulnerabilidade social, e de precarização urbana e a segmentos populacionais marginalizados. Linha de Ação (proposta para o Caderno de Ações):  a) Criar editais de ocupação de equipamentos públicos do estado (Teatros, Museus, Centros Culturais) com remuneração e pagamento de cachês aos artistas, técnicos, produtores e profissionais envolvido.


XV

Finalmente, mas com o intuito de prosseguir em discussão, propõe-se a revisão criteriosa do Texto-Base do Plano Estadual de Cultura, inserindo a regulamentação dos Colegiados Setoriais no corpo do texto, buscando a valorização e ampliação dos equipamentos culturais do estado, além do desdobramento dos tópicos do texto atual em Linhas de Ação a serem incorporadas à lei sob a forma de um “Caderno de Ações”. Este caderno de ações deverá ser anexado ao Plano, de forma a contemplar a proposição de ações práticas e metas objetivas ao Plano Estadual de Cultura. A comunidade cultural pode contribuir enormemente com sugestões e encaminhamentos sólidos e objetivos durante todo o processo e o Governo do Estado terá a oportunidade de reunir agentes da cadeia produtiva da cultura para pactuarem ações práticas. Além de avançar, vamos tirar o atraso e o pé do barro da cultura.

quarta-feira, abril 11

PROCULTURA: UMA ODISSÉIA EM PELOTAS


PROCULTURA: UMA ODISSÉIA EM PELOTAS
 
 
Por Leandro Maia
Músico
 
 
I
PROCULTURA é o nome do Programa Municipal de Apoio à Cultura instiuído pela Lei Municipal Nº 5.662, de 30 de dezembro de 2009. O programa é gerido pela Secretaria Municipal de Cultura, a SECULT, atualmente dirigida pelo Sr. Secretário Ulisses Nornberg. Vale ressaltar, de início, que a referida lei constituiu-se num grande avanço para a cidade, pois implementa uma política pública democrática, transparente, plural e eficiente, se realizada de fato.

II
É um avanço exemplar em vários sentidos. A proposta surgiu como uma demanda da própria comunidade cultural pelotense, através da manifestação de artistas e ativistas da cultura, de seminários como “Primavera da Cultura Livre”, promovidos pelos diversos coletivos e movimentos culturais da cidade, que é uma referência em cultura no Rio Grande do Sul e Brasil. Um avanço porque nasce do diálogo entre comunidade cultural e poder público. Um avanço porque compreende a cadeia produtiva do setor e sua organização como Economia da Cultura. Avanço porque entende as artes e a cultura como campo de trabalho, emprego e renda, além de elemento fundamental para a estruturação da subjetividade e imaginário simbólico de uma população. Uma programação cultural forte na cidade contribui para a educação, para o turismo, o lazer em diversos âmbitos da vida das pessoas.

III
O diálogo parece rompido unilateralmente, como se o tampão de ouvido utilizado por Ulisses, herói da Odisséia, ao invés de protegê-lo do canto das sereias, o tivesse protegido do canto dos artistas da cidade. Isto porque o Secretário Ulisses e o Prefeito Adolfo Fetter, decidiram utilizar as verbas destinadas ao Programa Municipal de Apoio à Cultura – que é gerenciado através de edital público, implementado por técnicos e avaliado por especialistas – em outras prioridades, digamos, o que gerou um “erro de sistema”, ocasionando atraso nos pagamentos. Desde o ano de 2011, diversas explicações foram dadas. Mas explicação não é diálogo. Diálogo é cumprir o que foi acordado, decretado, selado, registrado, carimbado, avaliado, rotulado, se quiser voar. Plunct, Plact, Zum, não vai a lugar nenhum, como diria o velho Raul. Se a cidade apresenta problema em relação a espaços culturais (vide Theatro Sete de Abril), apresenta também sério problema na área de financiamento à cultura.

IV
Voltando aos gregos: um simples jogo de lógica nos faria pensar a respeito. 1) O gestor público institui o PROCULTURA democrático, transparente, plural e eficiente. 2) O gestor público não executa o PROCULTURA democrático, tranparente, plural e eficiente. 3) Qual é a conclusão? Podemos afirmar que o gestor público é democrático, transparente, plural e eficiente? Talvez o procedimento de silogismo não esteja a contento e o autor possa parecer um sofista, mas o exercício é revelador da atual situação da Cultura em Pelotas. O mesmo gestor que cria a lei, não a aplica. Como fica?

V
E mais: o Programa não está completo. Recentemente em audiência sobre o tema na Câmara de Vereadores, realizada em 23/03/2012, ficou esclarecido outro “erro de sistema”: a verba do Procultura não se constitui num Fundo Municipal, não apresenta reserva ou destinação alguma. Não tem valor fixo, não tem prazo, vinculação. Nada obriga a Prefeitura a executar o orçamento referente ao Procultura – a não ser, é claro, o compromisso firmado através de editais e o controle da sociedade civil. Temos, então, um “cavalo de Tróia”, uma “Economia Informal da Cultura”, embora existam contratos assinados desde janeiro prevendo o repasse de verbas e execução de projetos importantes para a cidade. Um verdadeiro épico do financiamento à cultura.

VI
Vale ressaltar à população e ao poder público atual e futuro – já que estamos próximos às eleições municipais – que é urgente que o programa transforme-se realmente num Fundo. Isto é uma diretriz do próprio Ministério da Cultura (MinC) para o setor. Somente poderá participar do Sistema Nacional de Cultura, em fase de implementação, a prefeitura que tenha o chamado “CPF”, ou seja, que tenha instituído um Conselho, um Plano e um Fundo Municipais de Cultura. Se o Sistema Nacional de Cultura já estivesse em vigor, Pelotas não poderia participar dele, pois o Programa de Apoio à Cultura (PROCULTURA) não é gerido por meio de um Fundo Municipal, que tenha receita e rubricas próprias. É gerido através de uma verba aleatória e perambulante junto aos cofres da Prefeitura Municipal entre um carnaval e outro. Não ter um Fundo Municipal de Cultura em Pelotas impossibilita que a cidade receba, inclusive, verbas federais para o setor. Resumindo: além de não pagar o que deve, a Prefeitura Municipal impossibilita que venham outras fontes de recursos para a Cultura de Pelotas, pois a cada real investido pela Prefeitura, prevê-se um real do Governo Federal. Como está atualmente, o Procultura vive ao sabor dos ventos da nave de Ulisses em meio ao Mar Egeu. Antes fosse o Laranjal. Que a situação se resolva sem maiores tragédias e o PROCULTURA cumpra seus mais de doze trabalhos a serem realizados ainda neste ano.
 
 

segunda-feira, março 17

Estimados amigos ticos,



Estoy en Brasil pensando mucho en ustedes. Perdón pela carta abierta a todos, pero el trabajo me dejo sin el tiempo que yo gustaría para poder escribir para cada uno.

La viaje de vuelta se quedó muy difícil – por demasiado larga, por demasiado sola. Hay un escritor brasileño – Márcio de Souza – que dice que existen viajes de cura, descanso, y viajes de contaminación. Creo que en Costa Rica me quedé contaminado por la comida, por la música, la charla, los vinos, los colones, los buses Coopana, las panaderías de San Luís, las canciones, las universidades, por "El Pomodoro", por Solentiname, por los semáforos con sonido de piano y pájaros de San José, por quijongos, marímbúlas, fagotes, guitarras, Garífunas, poesía, el CPA, Cahuíta, el Poás – que no quise dejarse ver y Fergunson que no he podido vernos, por el sol de la tarde en las montañas, por el frío y la lluvia de ciertas horas del día.

Estoy en fase de adaptación: Porto Alegre es una ciudad con mucho calor, las monedas se parecen muy pequeñas para mis manos acostumbradas con las monedas grandes de Costa Rica. Todo el dinero aquí parece falso. ( en la realidad que todo dinero es falso todavía …) Dentro del aeropuerto yo tuve ganas de comprar todo: llaveros, bebidas, discos, camisetas, café, todo. Un sentimiento terrible de pierda – creo que es por eso que los antiguos querían ser enterrados con todas sus cosas, celosos de la vida de los otros. Mi papa cumple 75 años de edad hoy, yo tuve ganas de hablar cada vez más con el para conocer sus historias – como aquella vez en que trabajo como profesor en una comunidad de alemanes al sur de Brasil, sin saber hablar nada, con la piel oscura y diferente de los otros.

Yo dice a Maria que este viaje se quedó para mi realmente como un proceso de iniciación, una entrada dentro de mi mismo, por medio de los otros, un conjunto de espejos, reflejos y contrastes, con los ojos cerrados e mucha atención. Como todo proceso de cambio, tenemos que confiar en nuestros guiadores. No estoy arrepentido de la confianza, estoy seguro de que nuestra latinidad – ibérica, indígena y negra – que es extremamente compleja, linda, y al mismo tiempo sencilla y fascinante, como fragmentos quebrados de un espejo que refleja y disfraz dejando amplia nuestra percepción de la vida.

Un gran e afectuoso abrazo. Ojalá verlos nuevamente.

Leandro Maia

quarta-feira, janeiro 16

AVISO

Nem toda revolução política
é uma revolução cultural,
Mas toda revolução cultural
é uma revolução política

domingo, setembro 2

Retorno - mestre da canção

É isso aí, minha gente. Andei meio afastado, encaramujado, desengonçado, esgualepado. Entre o último show - dia 17/06 - e hoje muita coisa rolou:

* ME TORNEI MESTRE!!! Defendi dissertação dia 30/07: Quereres de Caetano: da canção à Canção. Gracias aos meus ilustres orientadores Dr. Luís Augusto Fischer e Dr. Celso Loureiro Chaves. Na banca nada mais, nada menos do que Maria do Carmo Campos - ensaísta, professora e poetisa - e Luiz Tatit - o semiótico da canção, compositor importantíssimo. Não dá pra descrever a experiência aqui. Estou revisando a dissertação e logo ponho no ar pra quem quiser conferir a loucura. Por enquanto, o resumo:

RESUMO





O Quereres, de Caetano Veloso, é a sétima faixa do disco Velô, de 1984. O objetivo desta dissertação é analisar esta obra utilizando instrumentais teóricos provenientes das áreas de música e de letras, considerando-se “Canção” como um gênero próprio que possui interfaces com a literatura e com a música, ao mesmo tempo em que se revela autônomo e de difícil categorização. Este trabalho está organizado a partir do estabelecimento de dois principais pontos de vista analíticos, denominados aqui de Intramelódico-textualidades e Extramelódico-textualidades. O primeiro trata da relação interna dos elementos presentes na canção tais como texto, melodia, ritmo, harmonia, arranjo e interpretação: a conexão, propriamente dita, entre letra e música na produção de um discurso cancional. O segundo, pondera a presença implícita e explícita de elementos externos a O Quereres: sua relação com outras canções, sua relação com outros autores, com a tradição poética luso-brasileira, a presença de elementos intertextuais e a possibilidade de diálogo com elementos da arte, da cultura e do conhecimento suscitados a partir de um atento processo de leitura-escuta. Busca-se, assim, um procedimento analítico que contemple a integridade da obra que conhecemos como “canção”, evitando a separação entre letra e música. Realiza-se, “de viés” uma abordagem que utiliza O Quereres como um ponto chave de recorte na obra de Caetano Veloso, uma lente que nos auxilia a compreender a poética deste compositor que considera a canção como uma forma bastante peculiar de se pensar à moda brasileira.









PALAVRAS-CHAVE: Canção – Análise Musical – Crítica Literária – Caetano VelosoABSTRACT



The song O Quereres, by Caetano Veloso, is the seventh track of the Velô record, of 1984. The objective of this work is to analyze this piece using theoretical instruments that partake from the areas of music and letters. It considers “song” as a proper genre with interrelations between literature and music, while at the same time demonstrating autonomous and difficult aspects. This work is organized on the establishment of two main analytical points of view, called here intermelodic textualities and extramelodic textualities. The former argues for the internal relation of the elements included in the song such as text, melody, rhythm, harmony, arrangement and interpretation, and the connection between text and music in the production of a “song” speech. The latter ponders on the implicit and explicit presence of external elements in O Quereres, its relation to other songs, other authors, and to the luso-Brazilian poetical tradition, as well as the presence of intertextual elements and the possibility of dialogue within elements of art, culture and knowledge in a reading-listening process. The aim of this project was to formulate an analytical procedure that will respect the integrity of the work of art known as “song”, preventing the separation of its elements between text and music. In this work, the song O Quereres is used as a means of understanding the poetics of Caetano Veloso, who considers the song as a peculiar form of the Brazilian way thinking.









KEY-WORDS: Song – Musical Analysis – Literacy Criticism – Caetano Veloso